Douglas Braz

Autor

mar 17, 2020


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Febre, cansaço, tosse seca, dores no corpo, congestão nasal, coriza e dor de garganta… Gripe, muitos diriam! Porém, estamos falando dos sintomas da covid-19 (a doença causada pelo coronavírus). Além de provocar tudo isso que foi descrito – levando em casos extremos à morte –, o vírus tem feito muito mais.

Fonte: newscientist

Fechando a bolsa de valores; desenfreando uma alta histórica da cotação do dólar; levando à suspensão do fluxo de pessoas da Europa para os EUA (consequentemente, tensionando as relações internacionais); suscitando especulações em torno da suspensão de aulas; dificultando o fluxo logístico com os países asiáticos e, assim, reduzindo a quantidade de produtos que chegam às prateleiras da ‘25 de março’; reduzindo as projeções de crescimento do ano 2020 e por aí vai…

É… O coronavírus tem instaurado o pânico nos mercados e colocado a economia em verdadeiro estado de “quarentena”! 

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Banco Central do Brasil

Do ponto de vista, metafórico, o coronavírus soa como uma verdadeira contradição ao século XXI: em pleno avanço célere de uma globalização que, ao menos em tese, desconhece fronteiras para a interação, na era das plataformas e inúmeros recursos informacionais-digitais que acentuam fortemente a abertura dos mais diversos mercados, temos uma “pedra” colocada bem no meio do caminho entre as relações econômicas, pessoais, diplomáticas, enfim, na dimensão do contato.

O isolamento que o coronavírus nos impõe neste instante, vai de um simples aperto de mão na padaria da esquina ao freio que a redução das relações comerciais com a China produz no marco do livre comércio e do sucesso das chamadas “cadeias globais de valor”. 

Com todo o caos e especulações, a procura por ativos seguros, a prudência nas decisões financeiras e produtivas e o temor generalizado são as posturas mais comuns no Brasil e no mundo e, com isso, as expectativas vão ficando cada vez menos otimistas e os investimentos cada vez mais parados.

O que, então, o produtor rural brasileiro pode esperar dessa pandemia? 

Bem, o setor agropecuário sempre sofre grande impacto da conjuntura internacional, devido à elevada especialização de nosso país na produção e exportação de commodities agrícolas e minerais. Portanto, quaisquer fatores que repercutam negativamente sobre a renda mundial, como é o caso do coronavírus ao impactar na produção da China e de outros países mais duramente afetados pelo surto, ou que coloquem freios nos investimentos produtivos devido a receios quanto ao futuro, naturalmente afetam o comércio agropecuário, sobretudo no caso de commodities de ampla negociação internacional, com a soja, a carne, o milho e o café, para citar alguns exemplos. 

A queda do preço das commodities, consequentemente, é um movimento natural e que reflete, neste momento, principalmente a busca por ativos mais seguros (como o dólar e o ouro cujas cotações têm subido descontroladamente). Por outro lado, a desvalorização contínua e acentuada do real (que chegou hoje na casa histórica dos 5 reais!) significa também ganho de competitividade para os produtores brasileiros relativamente a outros países.

Um efeito positivo, portanto! Mas, é claro, essa trajetória do dólar também deve ser vista com muita cautela, considerando que, de outro ângulo, ela representa aumento do custo das importações e, no caso do agronegócio, nós sabemos que elas são representativas, já que a maior parte dos fertilizantes e defensivos advém do exterior. 

Então, se pudéssemos dar algum tipo de recomendação para o produtor do agronegócio nesse sentido, diríamos:

se você já comprou os insumos produtivos para a safra 2020, você está diante da oportunidade de travar os custos e ganhar com a venda a um preço mais elevado!

Por isso, fechar contratos de venda antecipados para a safra 2020/2021 com o atual preço da moeda parece ser interessante, neste caso. Com respeito ao longo prazo, fica difícil fazer quaisquer projeções com convicção, mas o que se espera é que as coisas normalizem passada essa crise mundial no quadro da pandemia da covid-19, considerando que o atual momento representa o auge desse caos.

O governo dos EUA anunciou um investimento de mais de 8 bilhões de dólares para combate do coronavírus e a China também tem colocado recursos a todo vapor para desenvolvimento da vacina imunizante. Com todos os esforços que têm sido feitos pelos cientistas das mais distintas nações e diante da celeridade de aprovação de trâmites, podemos ter esperança de que não demorará muito para termos uma solução nesse nível. 

Mas, enquanto esse momento não chega o produtor rural certamente tem que se preparar para dias sombrios, afinal, nosso principal parceiro bilateral na destinação de commodities é a gigante China, e nossa dependência por seus produtos também é grande! Quer um exemplo?

Você sabia que mais de 38% das importações brasileiras de insumos usados no campo vêm de lá? Isso mesmo! Segundo um levantamento feio pela Markestrat Consulting Group, 100% do Glifosato importado por nós vem da China, 99% do Paraquat e 40% do Alaclor.

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Marketstrat

Enfim, as agitações do mercado parecem demonstrar um momento de verdadeira convulsão nos ânimos de investidores, mas o que queremos chamar atenção é para a sensação aguda que parece tomar conta de nós sempre que um episódio como este acontece: a de que a tormenta parece não ter fim.

É esse o sintoma com o qual mais devemos ter cautela, diante de tantas notícias que por vezes nos preenchem com pessimismo e nos incitam um desespero latente. Lembremo-nos, por exemplo, que o surto de H1N1 que atravessamos em 2009 teve letalidade bem maior do que a que vêm sendo verificada com o coronavírus. 

Não estamos, obviamente, subestimando a atual crise da saúde (e porque não dizer das finanças?) que está em curso em escala global. Mas, apenas lembrando que lançar um olhar sobre o horizonte mais longínquo, seja ele nas experiências passadas, seja no que o futuro nos reserva, torna nossas preocupações mais realistas do que pessimistas.

E você, produtor, acredita que terá bons preços de venda nessa safra?

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